sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

MONTEVIDEO


MONTEVIDEO

J. B. LIMA


J. B. LIMA

A capital do Uruguai é uma das mais belas cidades da América do Sul. Situada numa planície, às margens do Rio da Prata, caracteriza-se pela existência de inúmeras praças, muito arborizadas, a maioria cercada por edifícios de arquitetura antiga, quase todas contendo majestosos monumentos. Sua orla marítima é bem cuidada, muito extensa e ajardinada, possuindo um calçadão agradável para quem deseja fazer suas corridas e caminhadas. As águas do rio se confundem com as do Oceano Atlântico, fazendo limites com a Argentina, possuindo uma largura de centenas de quilômetros entre os dois países. Na parte turística, Montevideo se destaca possuindo uma excelente rede de hotéis, diversas casas de tango, teatros e muitos passeios interessantes. Possui, também, uma boa quantidade de restaurantes, churrascarias, principalmente, dada a excelência de sua carne. Um dos lugares em que se sobressai, é o Café Carlos Gardel, que tem em sua calçada fronteiriça a estátua do cantor sentado em um banco, com espaço para fotos com turistas. No Uruguai o jogo permitido, existindo diversos cassinos. Mayra, uma uruguaia bonita, 23 anos, solteira, bailarina clássica, pertencente a uma família de classe média, moradora em uma boa casa com seus pais, num bairro também de classe média, costumava, pela manhã, fazer suas corridas todos os dias, pelo calçadão da orla. Bonita, com um corpo invejável, era uma das atrações do local. Rodolfo, professor de educação física, também é frequentador do espaço. Bem-apanhado, 25 anos, vinha há já um certo tempo, tentando se aproximar de Mayra. Apenas, só um bom-dia, até amanhã, era o que conseguia, no máximo. Até que, um dia Mayra pisa numa pedra e sofre uma queda. Mais que depressa, estando um pouco atrás da moça, vai socorrê-la.


Cléa Magnani

Com a ajuda de Rodolfo Mayra tentou se levantar, mas soltou um gemido e não conseguiu andar. Se deixou amparar pelos braços fortes do rapaz que a conduziu ao Pronto Socorro mais próximo. Depois das radiografias o Médico disse: A senhorita torceu o tornozelo. Precisa enfaixá-lo, e ficar em repouso. Rodolfo a levou para casa. Ao verem Mayra com o pé enfaixado, seus pais se assustaram. Ficaram muito agradecidos ao rapaz que prometeu voltar para saber como ela estava passando. Bailarina, Mayra não se conformava pelo tempo em que teria de ficar imobilizada. Estava em treinamento intensivo para um grande espetáculo que estava sendo preparado, e seria apresentado no Teatro Solís em 25 de Agosto, na abertura da semana de comemorações da Independência Uruguaia. Findo o prazo do tratamento, seu tornozelo ainda inchado e dolorido, precisaria de muita fisioterapia para estar em dia dali a três meses. Rodolfo a levava para os exercícios a cada dois dias. Desde o dia do tombo de Mayra ele passou a se dedicar à jovem como se já a conhecesse, ou como se fosse ele o responsável pelo acontecido. Porém Rodolfo era noivo de Arianna que sofria com o que dizia ser um descaso para com ela.  Finalmente chegou o dia da apresentação. A abertura, com o corpo de baile do Teatro Solís foi sensacional. Mayra, dançou como nunca. Rodolfo e Arianna foram à apresentação. Ele aplaudia entusiasmado, enquanto que Arianna, visivelmente contrariada, não soltava seu braço.


Deomídio Macêdo

A relação entre Rodolfo e Arianna estava desgastada há algum tempo e naquela noite do espetáculo do corpo de ballet, apresentado no Teatro Solís, do qual Mayra era dançarina, piorou a situação entre o casal, quando ela percebeu o interesse do seu noivo por Mayra. O ciúme tomou conta do coração da jovem e quando Rodolfo a conduzia para casa, a moça vociferava com raiva e num impulso mais agressivo arrancou a aliança do dedo e lançou no peito do mancebo. Com aquela cena a moça encerrou o compromisso de noivado. Mayra continuava fazendo as suas apresentações no teatro Solís, mas Rodolfo nunca mais apareceu para prestigiá-la. Até que um dia, ela o enxerga, mais uma vez, sorridente na plateia, aplaudindo-a. Ao final do show, Rodolfo se aproxima da bailarina, beija a sua face e parabeniza pelo belíssimo trabalho realizado. Entre uma conversa e outra, o professor de educação física informa sobre o término do seu noivado. Com a maravilhosa notícia, Mayra o arrasta pela mão e o convida para ir com seus colegas ao Café Carlos Gardel. Em seguida, visitaram a fonte dos cadeados, considerada a fonte do amor, e ali naquele local mágico eles se beijaram. Um ano depois daquele encontro, já estavam casados e para completar a família nasceu uma linda menina. Alguns anos depois, Mayra estava grávida novamente. No quarto mês de gravidez, ao realizar a ultrassonografia, o doutor diagnosticou o feto com anencefalia. Aquela notícia foi um choque para o casal. Eles procuraram outra clínica e o resultado foi confirmado. O que fazer agora? Abortar? “Nem sempre podemos escolher a música que a vida toca, mas podemos escolher o jeito de dançar", com responsabilidade.



Alberto Vasconcelos

Abatidos pela fatídica notícia, foram rezar na matriz e em suas preces pediram à Padroeira Virgem da Assunção que a criança nascesse normal. Mas os exames eram conclusivos, havia a anencefalia e a opção adequada era o aborto conforme dissera o médico. Antes de voltarem para casa, resolveram passear no calçadão. Naquele mesmo calçadão aonde anos atrás um tombo durante a corrida unira suas vidas. Havia turbilhão em suas mentes depois da conversa que decidiu pelo aborto, afinal a má formação do feto é absolutamente irreversível. Diferente de suas mentes, as águas da bacia do Rio da Prata estavam serenas como um lago apesar das lufadas do vento pampeiro. Calados e esgotados sentaram-se num dos bancos do calçadão para observar os cachorros quando um deles, ao se soltar, veio enrodilhar-se aos pés de Mayra. O passeador de cães, chegou em seguida com mais seis animais e desmanchando-se em desculpas procurou recolocar a coleira no belo animal, mas ele permanecia enredado entre as pernas do casal. Mayra ficou de pé e o rapaz procurou tranquiliza-la dizendo que os animais eram dóceis e, continuando a falar disse: meu nome é Serafim e eu tenho um recado para lhes dar. Apesar do drama terrível que vocês estão vivendo, nada é impossível para aqueles que acreditam no poder da oração e na intercessão da Virgem dos Trinta e Três. O filho de vocês nascerá tão belo e forte quanto as flores dessa corticeira e num gesto, quase mágico, enquanto se afastava, entregou a Mayra a flor símbolo do país. Uma centelha de esperança iluminou os rostos do casal. Como aquele rapaz, que sumiu no meio do povo, sabia do problema deles? Há mais coisa entre o céu e a terra do que pode imaginar a nossa vã filosofia?



José Bueno Lima


“A fé vê o invisível, acredita no que é inacreditável e recebe o que é impossível”

(Martinho Lutero).

Mayra e Rodolfo estavam pasmos com o acontecido e combinaram de todos os dias irem à Igreja Padroeira Virgem de Assunção. E, assim procederam. Cada vez mais acreditavam nas palavras do desconhecido Serafim. A gestação de Mayra se desenrolou tranquilamente. Resolveu o casal evitar novas visitas ao ginecologista ou efetuar novos exames. A par de todas essas vicissitudes, apesar da jovem não ter condições de praticar a dança, Rodolfo progrediu financeiramente, pois como em toda parte, o Uruguai foi atacado pela febre das academias de ginásticas. Em pouco tempo ele conseguiu montar a sua e ainda, negociar, em forma de franquia, um bom número de congêneres. O tempo, que não tem freios, continuou correndo até chegar ao grande dia do parto. Mayra foi hospitalizada, houve parto normal, e nasceu um lindo menino, para alegria do casal, principalmente para Rodolfo. Perfeito, totalmente são. O caso, como era de se esperar, causou enorme repercussão em todo o país e na mídia internacional. Tão grande foi o assédio, que eles foram obrigados a transferir a residência para um destino ignorado até as coisas se acalmarem. Bem situado financeiramente, o casal resolveu cumprir uma promessa que fez após a predição de Serafim, de constituir uma fundação, com fins de auxiliar de todas maneiras possíveis, parturientes com problemas durante o período pré-natal, de modo especial, as que não tinham condições financeiras. E chamaram a instituição, de Fundação Anjo Serafim, o de seis asas e o que mais perto está de Deus.


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

VIDA NA AREIA



 VIDA NA AREIA

Alberto Vasconcelos  

 



A brisa morna do fim da tarde fazia com que as folhas do coqueiro parecessem mãos agitadas se despedindo de mais um dia. O sol num ocaso breve, fez com que os contornos da paisagem se perdessem na escuridão da noite enquanto aguardava o clarão da lua, as ondas revoltas espraiavam algas sobre a areia que ainda guardava um pouco do calor do dia que se fora. Nesses momentos a saudade se tornava mais cruel, a dor opressiva no peito parecia desmanchar as fibras do coração e o pescador, mais uma vez, lamentava seu jeito de ser. Teria sido mesmo tudo verdade? Será que os acontecimentos não foram alterados pela língua ferina do povo? Quantas vezes ele ouvira histórias que nem de longe eram verdadeiras? Um caminho de luz brilhante azulada ligou seus pés calejados ao horizonte onde, esplendorosa a lua surgia por entre as grossas nuvens. Sem dúvida haveria chuva forte. O caniço fincado na areia deu sinal de que algo estava fisgado. Instintivamente, travou o molinete e começou a recolher a linha. Agora, o mundo a sua volta perdera importância, suas lembranças foram colocadas nas prateleiras da memória. Havia pressa. O que estava fisgado, não importando o que fosse, precisava ser trazido para a praia, para ser vendido se tivesse algum valor, para seu sustento ou para ser devolvido ao mar, se a ele pertencesse. Quantas coisas podem se prender ao anzol arremessado? E dessas coisas, quantas precisam ser devolvidas ao reino das águas para o bem de todos, para acalmar os elementos e aliviar a dor que tanto maltrata? Quem poderia dizer a quantas formas de vida nos ligam outras linhas diferentes dessa que o forçava a pisar na espuma branca?


J. B. Lima




A emoção da puxada da linha é muito forte. O pescador sente um frenesi em seu peito, tal como o artilheiro na hora do gol, no futebol! É uma emoção tão grande, que ele sente a falta de uma grande plateia quando o fruto de sua habilidade chega à luz. Aí as testemunhas explodem em diversas maneiras: como o peixe é grande, que peixe é, que sorte, que habilidade, parabéns. E sempre é bom haver assistência razoável, para comprovar o feito do pescador. Por falar nisso, de modo geral, a fama do pescador é de que ele floreia demais ao contar seus causos, aumenta em demasia o tamanho, a espécie, chegando a ser taxado como mentiroso. Sobre isso, há uma historinha muito interessante. Um pescador tinha a fama de sempre contar casos extravagantes na cidade em que morava. Era tido como o maior mentiroso. Em determinada pescaria, como sempre, ele gostava de se exibir, mostrando seu arsenal de munição. Estava em um rio de uns cinquenta metros de largura. Na margem do outro lado, estava um caboclo morador das redondezas. Vendo o modo todo fantasioso do pescador, resolveu aprontar uma. Muito arisco, viu um cágado por perto, foi fácil pegá-lo. Com rapidez tirou a roupa e mergulhou no rio, procurou, achou o anzol da vítima e fisgou no mesmo, o animal. O pescador, sentindo a puxada, logo travou a carretilha e trouxe a linhada todo cheio de trejeitos, com a presa. O caboclo logo chegou ao seu lado, e cumprimentando-o, deu-lhe os parabéns por ter “pescado” algo inesperado. Nunca tinha visto coisa igual. Ele, com toda empáfia, virou para o caboclo, dizendo com a maior cara de pau, que aquele era o terceiro cágado que pegara naquele dia.


Cléa Magnani




A areia que serve como piso para o mar e para os rios, é composta por grãos de rochas e pedras “surradas” pelo movimento incessante das águas das ondas e das cachoeiras. Assim como os grãos não são iguais, as histórias que a areia encerra, também não o são. Quantas piadas de pescador as areias já ouviram? Quantas lágrimas já umedeceram seus grãos? Jovino, com os olhos perdidos no vai e vem das ondas, passava a limpo sua vidinha besta: Desde que perdera seu pai, que saiu com sua jangada para pescar, e que, como na canção de Caymmi. “a jangada voltou só”, sua vida era só cuidar da mãe e dos irmãos. Perdeu Raimundo, seu maior amigo por uma bobagem, e o movimento do braço por causa da briga, quando Raimundo o feriu com a faca. E agora diziam que Marina, o seu sonho, estava se engraçando com Raimundo... Êta vida miserável! ... Absorto em suas reflexões nem percebeu que a noite já caía, quando algo moveu a vara. Parecia ser algo pesado, mas que não lutava para escapar. Se movia ao sabor das ondas, envergava o caniço, mas não cedia... A claridade da lua que cheia, fazia a maré subir, permitia que ele visse o movimento da linhada; mas “a coisa” não aparecia à flor d’água. Uma nuvem ocultou o luar, e um relâmpago coriscou o céu, clareando a escuridão, seguido de um tonitruante trovão que tocava os clarins para a tempestade que se aproximava. Jovino ainda tentava tirar aquilo das águas agora revoltas, enquanto grossas gotas de chuva castigavam a paisagem, estalando na areia e doendo na pele. A única solução para não perder a linha e o anzol, seria amarrar o caniço num dos coqueiros da orla. Amarrou e correu para casa. Na manhã seguinte, com a maré baixa, dava para ver a linha enterrada na areia, Jovino cavou e encontrou uma caixa de madeira presa ao seu anzol...


Deomídio Macêdo




A pá e alguns embornais que trouxera de casa foram deixados na areia molhada que não oferecia resistência às mãos calejadas pelas durezas que a vida lhe proporcionou. Com o esforço sentia dores no braço atrofiado, mas não podia parar pela ânsia de ver o que continha aquela caixa de tampa abobadada com pouco mais de dois palmos de tamanho. A sua plateia, numa torcida frenética, fazia o maior alvoroço. Eram as gaivotas que bailavam ao bel-prazer do vento. Quando a caixa ficou totalmente liberada, surgiu um grande cadeado carcomido pela salinização das águas marítimas e um símbolo com um letreiro que o pescador não compreendia. A única ferramenta que tinha para abrir o cadeado era a sua pá, então levantou-a ao ar e aplicou um golpe na fechadura insensível, que continuava guardando o segredo do bauzinho. O tilintar da pá no cadeado espantou as gaivotas que repousavam na areia testemunhando aquela cena, que parecia uma história inventada por pescadores. Após algumas pancadas mais fortes, o cadeado cede, alegrando Jovino que o retira com rapidez. Pouco tempo depois a caixa escancarou para aquele homem simples, um tesouro com diversas moedas de ouro e pedras preciosas. Naturalmente as ondas marítimas trouxeram aquele tesouro de alguma embarcação naufragada no século 18, pois o Brasil era rota de navios comerciais. Jovino não acreditava no que estava vendo. Pulava igual a uma criança, corria atrás das gaivotas, rolava na areia. Com a respiração ofegante dividiu sua riqueza pelos quatro embornais e levou para casa, mas teve o cuidado de tapar o buraco para que o pequeno baú não fosse visto por mais ninguém. Pensou: estou rico. Mas como justificar a riqueza, o que diz a Lei de tesouros achados?


Alberto Vasconcelos




Jovino era analfabeto, mas não era tolo e guardou absoluto segredo sobre o seu achado, pois sabia que se a notícia se espalhasse, iriam aparecer milhares de amigos e as autoridades iriam confiscar tudo. A melhor coisa a ser feita era ir-se embora daquela praia, como fizeram os seus irmãos. A mãe, sempre falava das belezas do Serrado e do desejo de voltar à terra em que nascera. Estava na hora de realizar o sonho que a velha acalentara por toda a vida. Na mesma semana, despediu-se dos outros pescadores dizendo-se cansado daquela vida de penúria, que iria com a sua família tentar a vida no pantanal, onde a pesca é mais fácil que no mar. Para mostrar que não guardava rancor de ninguém, deixou para Raimundo, seu desafeto, a jangada que pertencera ao seu pai e sem se despedir, deixou para trás Marina e o amor que sentia por ela. Junto com três dos irmãos e a mãe instalou-se no terreno que comprou de antigo tropeiro sem parentes. Jovino fez questão que nhô Tião permanecesse com eles, pois sentia por ele um carinho quase filial. Aproveitando-se dos conhecimentos do velho, construiu a pousada Ninhal das Araras onde os dias transcorrem amenos. Pisando descalço as areias finas das praias ribeirinhas, leva os hóspedes para pescar ou fotografar os animais em vida livre e quando o negrume da noite faz resplandecer as estrelas ou a lua cheia pinta de prateado as águas do Taquari, sentados nos bancos rústicos do lajeado em torno da fogueira, hóspedes e residentes ouvem as arrepiantes histórias das comitivas assombradas pelas estradas narradas por nhô Tião ou se falam nos causos de caçadas, das pescarias, dos cágados e baús de tesouros, todos “verdadeiros” enquanto saboreiam o caldo de piranha, especialidade pantaneira, preparado pela cabocla Moema, seu verdadeiro e fiel amor.       




                                     


                                                    



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